Desencontro
October 18th, 2009

Ele pediu
Ela negou
Ele chorou
Ela não viu
Ele partiu
Ela ficou
O tempo passou
Ele não viu
Ela chorou
Ela custou
Mas decidiu
Ele voltou
Ela sorriu

Ele pediu
Ela negou
Ele chorou
Ela não viu
Ele partiu
Ela ficou
O tempo passou
Ele não viu
Ela chorou
Ela custou
Mas decidiu
Ele voltou
Ela sorriu

Por não conseguir terminar a carta de suicídio em tempo, morreu de velhice.


Naquele momento, de dentro da caixa, ela achou aquilo tudo muito irônico. Ser a mulher dividida em dois e ao mesmo tempo estar dividida entre dois homens.

Na tentativa de se suicidar, matou o irmão gêmeo por engano.

Chegou em casa naquela noite pronto para mudar o mundo. Embora não soubesse ainda como, ou mesmo em qual área do conhecimento se daria sua descoberta, estava claro que por trás daqueles olhos embriagados despontaria em breve uma solução verdadeira e simples. Capaz de elevar a espécie humana a um novo patamar em apenas uma madrugada. Mas antes foi checar suas mensagens e viu que ela tinha retirado o item “solteiro” do seu orkut. Acabou indo dormir.

Não fossem as vogais, o que seria das consoantes?

Conheceram-se em Paris, apaixonaram-se porque era Paris. Ele queria subir a torre porque sabia que só tomaria coragem para beijá-la lá em cima. Ela não queria porque era domingo e a fila estava grande. Pararam para tomar um sorvete. Ela perguntou: -How is the sundae? -It’s going good, ele respondeu. Despediram-se sem nunca saber se deveriam ter subido a torre, se deveriam ter se beijado, ou se aquele diálogo era sobre o sorvete ou o dia da semana.

Ana via tudo ao contrário. Era a única pessoa do mundo que conseguia se ver no espelho exatamente como era. Também conseguia ler numa boa a palavra “ambulância” escrita no capô das ambulâncias. Mas o resto não era lá essas coisas - muito pelo contrário.
Estendiam uma mão para cumprimentá-la e ela estendia a outra. Virava o volante para um lado e o carro ia para o outro. De certo não era a pessoa ideal para você pedir informações caso andasse perdido na rua.
Até que um dia conheceu Oto. Se esbarraram na rua após tentarem desviar um do outro sem sucesso. Oto foi se desculpar alegando um raro problema de visão que não conseguia explicar direito.
Ana sorriu, foram tomar um café. Nos dois beijinhos de despedida confundiram-se de novo, e assim viveram felizes para sempre. Um casal que funcionava em todos os sentidos: Ana e Oto. Oto e Ana.

Tudo que ele começava, largava pela metade. Por mais que sua mãe insistisse, deixava sempre o seu prato pela metade. Com sua primeira namorada terminou na metade. Começou a faculdade, largou na metade. Até que um dia…